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27 de jul de 2013

Demografia Médica no Brasil - dados gerais e descrições de desigualdades,desenvolvido em parceria entre o Cremesp e o Conselho Federal de Medicina (CFM).



Censo de médicos

Pesquisa Cremesp/CFM fragiliza tese de que médicos jovens procuram especialidades mais "rentáveis"







Renato Azevedo: publicação coincide com discussão de
propostas sobre escassez de médicos em áreas desassistidas

Dos 371.788 médicos ativos no país, 55,1% são especialistas e 44,9%, generalistas – ou seja 1,23 especialista para cada generalista. Os dados são do censo inédito de especialidades, do estudo Demografia Médica no Brasil - dados gerais e descrições de desigualdades,desenvolvido em parceria entre o Cremesp e o Conselho Federal de Medicina (CFM).

O Sul tem o maior número de especialistas, 1,95 para cada generalista. O Norte, com 0,83, e o Nordeste, com 0,96, ocupam posição oposta. Os dados sugerem ainda que os especialistas, dentro de um mesmo estado, estão concentrados na capital e atuando principalmente no setor privado. A presença de especialistas é mais alta no Distrito Federal (2,11) e a região Sudeste aparece abaixo da média nacional – 1,16 especialista para cada generalista. Cerca de 81% dos médicos jovens, com 29 anos ou menos, é generalista. Já na faixa etária acima de 35, mais de 70% são especialistas. O estudo também derruba a tese de que médicos mais jovens buscam especialidades consideradas mais rentáveis, em detrimento das mais básicas. Duas especialidades, Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia, reúnem quase um quarto (24,46%) de todos os titulados.

Embora muitas especialidades, como as cirúrgicas, exijam infraestrutura mais compatíveis com os grandes centros, a pesquisa demonstra que moradores de regiões mais pobres têm não só o menor número de médicos à disposição, como também o de especialistas. O censo de especialidades reforça a má distribuição de médicos pelo país, com maior vinculação aos serviços privados - dentro das conclusões preliminares sobre os médicos em geral da pesquisaDemografia Médica no Brasil: dados gerais e descrições de desigualdades, divulgadas ontem pelo Cremesp e CFM.

O estudo completo foi apresentado na manhã desta quinta-feira (1º/12) pelo Cremesp durante o II Fórum de Ensino Médico em Brasília. “Tendo em vista o debate atual sobre a necessidade de médicos, nosso compromisso é produzir um conhecimento sistemático, objetivo e preciso sobre a demografia médica brasileira. Inclusive, porque a publicação coincide com o surgimento de propostas do Governo Federal e do Poder Legislativo para o enfrentamento da escassez, provimento e fixação de médicos em áreas desassistidas”, salientou o presidente do Cremesp, Renato Azevedo Junior, durante a apresentação do trabalho.

“Numa Nação onde são anunciados avanços econômicos e o combate à pobreza toma ares de programa de governo, torna-se imperioso que a saúde ocupe a centro da cena. Para tanto, temos reiterado a necessidade de mais recursos e o estabelecimento de políticas públicas justas para com o médico e com todos os profissionais da área”, ressalta o presidente do CFM, Roberto Luiz d’Avila, confiante em que o trabalho subsidie a elaboração de politicas públicas nos campos do trabalho e do ensino médicos.

O trabalho inédito responde cientificamente a questões chave para o futuro da saúde e da medicina no Brasil. Ele será encaminhado às lideranças do movimento médico, aos parlamentares, aos gestores públicos e privados, a especialistas em ensino e trabalho, e entregue formalmente aos ministros da Educação, Fernando Haddad, e da Saúde, Alexandre Padilha.

55% dos médicos brasileiros possuem pelo menos um título de especialista

O Brasil conta com 204.563 médicos especialistas e 167.225 médicos generalistas em 2011, conforme censo inédito obtido pelo presente estudo com o cruzamento dos dados registrados pelos Conselhos Regionais de Medicina, que compõem a base do Conselho Federal de Medina (CFM), pela Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM) e pelas sociedades brasileiras de especialidades médicas, reunidas na Associação Médica Brasileira (AMB).

O censo de especialistas não fornece informações sobre a escassez ou a necessidade de mais médicos nesta ou naquela especialidade. Ao usar como parâmetro a especialidade titulada, ao desenhar a distribuição e o perfil dos especialistas, delimita um universo que merece ser estudado. No entanto, acrescenta novos elementos à discussão sobre a suposta escassez de especialistas no Brasil, já reportada em estudos baseados no cadastro e nas informações fornecidas pelos estabelecimentos de saúde ou por meio de pesquisas de opinião com gestores de hospitais, que creditam à baixa remuneração e à sub-oferta de profissionais as dificuldades de contratação.

Para efeito desta pesquisa, “médico especialista” é aquele que possui título oficial em uma das 53 especialidades médicas reconhecidas no Brasil. E “médico generalista” é todo aquele que não possui título formal de especialista. Existem duas formas de obtenção do título de especialista: após a conclusão de um programa de Residência Médica reconhecido pelo MEC ou mediante concurso da respectiva sociedade de especialidade médica vinculada à AMB.

Os generalistas, juntamente com os especialistas titulados em especialidades básicas, são os responsáveis pelo atendimento médico primário, que constitui a “porta de entrada”, o primeiro ponto de contato dos pacientes com o sistema de saúde. Já os demais especialistas asseguram os atendimentos secundários e terciários ou atuam em especialidades não curativas.

O Brasil não segue essa compreensão. O país prescinde de uma formação sólida na graduação médica, não há vagas na Residência Médica para todos os egressos de cursos de medicina e ainda não consolidou um sistema de saúde único e hierarquizado como preconiza a legislação, centrado em níveis de complexidade dos serviços, com referência e contra referência. Diante dos avanços tecnológicos, do perfil de morbimortalidade da população e de um sistema público-privado fragmentado, acentuou-se a pressão sobre os serviços médicos especializados. Além disso, a remuneração dos especialistas é geralmente maior do que a dos generalistas.




Distribuição de especialistas reflete a desigualdade na presença dos médicos pelo país

Dos 371.788 médicos brasileiros em atividade, 55,1% são especialistas. Os demais 44,9% são generalistas. A razão no país é de 1,23 especialista para cada generalista. Os números são do censo inédito realizado pelo estudo Demografia Médica no Brasil. A razão especialista/generalista por grandes regiões reflete de alguma forma a distribuição de médicos pelo país. Além disso, a análise dos dados sugere a possibilidade de que esses especialistas, dentro de um mesmo estado, estejam concentrados mais na capital e com atuação mais voltada para o setor privado.

O Sul tem o maior número de especialistas, 1,95 para cada médico generalista. O Norte, com 0,83, e o Nordeste, com 0,96, ocupam posição oposta, com mais generalistas do que especialistas. A região Centro-Oeste tem 1,66 especialista para cada generalista, o que se explica também pela presença do Distrito Federal, onde a razão é de 2,11, a mais alta do país. O Sudeste aparece abaixo da média nacional – 1,16 especialista para cada generalista (Tabela 16).



A divisão entre especialistas e generalistas apresenta contrastes maiores quando se observa as unidades da federação. Em 12 delas há mais generalistas que especialistas. Não por coincidência, vários desses estados estão entre aqueles com menor razão médico por 1.000 habitantes.



De um modo geral, os moradores de regiões mais pobres têm não só o menor número de médicos à disposição, como também o menor número de especialistas entre eles. Para que possam ser exercidas, muitas especialidades, particularmente as cirúrgicas, exigem serviços hospitalares com infraestrutura e demanda mais compatíveis com os grandes centros.

No entanto, essa regra não funciona para alguns estados. Rio de Janeiro tem mais generalistas que especialistas e São Paulo quase empata. Múltiplos fatores podem estar relacionados a esse perfil: são os dois estados com o maior número de cursos de Medicina, que atraem médicos de todo o país e concentram a maioria dos programas de Residência Médica, mas as vagas não são suficientes para todos. E são, ao mesmo tempo, locais de formação de especialistas que muitas vezes migram para seus estados de origem.






Maioria dos generalistas é composta por jovens médicos

A grande maioria dos médicos jovens, com 29 anos ou menos, está em atividade como generalista. Cerca de 80% dos profissionais nessa faixa etária não têm título de especialista, e muitos ainda estão cursando a Residência Médica, que toma de 2 a 6 anos, ou aguardam oportunidade para prestar concurso em alguma sociedade de especialidade.

A tendência, como se observa nos grupos de maior idade, é aumentar a proporção daqueles que têm o título. De minoria entre os mais jovens, os especialistas passam para 58,02% já na faixa entre 30 e 34 anos. No grupo seguinte, de 35 a 39 anos, eles já atingem 70,80% e chegam a 71,63% entre os médicos com 40 a 44 anos. Daí para frente, até os 69 anos, a diferença é menor, mas os especialistas continuam em maioria.





Só no grupo mais idoso, com 70 anos ou mais, os generalistas voltam a ser maioria, com 72,06%. Médicos das últimas faixas etárias, vale lembrar, não vivenciaram as especialidades tituladas nos moldes atuais.

Se os generalistas predominam entre os mais jovens, situação que se inverte entre os 30 e 69 anos em favor dos especialistas, voltando em seguida a ter maioria de generalistas. Há uma concentração maior de não especialistas em torno dos 30 anos, com uma queda por volta dos 40 para subir novamente ao redor dos 60 anos.

A concentração de especialistas, como se vê, se dá por volta dos 35 anos, com queda a partir dos 45 anos, que se acentua a partir dos 60 anos. Os dados são quase idênticos, para os dois sexos, quando se observa os grupos de generalista, de especialista, e do total de médicos.

As mulheres são 39,58% dos generalistas, são 40,61% dos especialistas e representam 40,15% o conjunto de médicos. Os homens são 60,42% dos generalsitas, 59,39% dos especialistas e 59,85% do total de médicos.

Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia concentram quase um quarto dos especialistas

O censo dos médicos especialistas brasileiros mostra a distribuição dos 204.563 profissionais titulados pelas 53 especialidades reconhecidas. Duas das especialidades, Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia, reúnem 24,46% do universo de especialistas, ou seja, quase um quarto de todos os profissionais titulados.

Sete especialidades concentram mais da metade dos profissionais, 52,75% deles. As dez primeiras no ranking com mais especialistas reúnem 64,97% do total de médicos titulados. Além de Pediatria e GO, estão Anestesiologia, Cirurgia Geral, Clínica Médica, Ortopedia e Traumatologia, Oftalmologia, Medicina do Trabalho, Cardiologia, e Radiologia e Diagnóstico por Imagem.





Clínica Médica, Cirurgia Geral e Medicina da Família têm médicos mais jovens. A média de idade dos médicos por especialidade permite observar as áreas procuradas pelos mais jovens e aquelas ocupadas por profissionais mais idosos, revelando possivelmente preferências pessoais e profissionais, mudanças no perfil de necessidades da saúde e tendências do mercado.

Chama a atenção o fato de três especialidades básicas concentrarem grande número de jovens. Os 10.640 titulados em Clínica Médica têm a mais baixa média de idade de todo o grupo, com 37,55 anos. A média de idade da população médica no Brasil é de 46,03 anos. Especialistas de Medicina de Família têm média de idade de 39,51 anos, e de Cirurgia Geral, 42,78 anos.

É frágil, portanto, a propalada tese de que os jovens médicos tem se afastado das especialidades básicas em busca das mais “rentáveis”. Entre as especialidades com menor média de idade ainda estão a Infectologia (41,72 anos), a Cancerologia (43,87 anos) e a Genética Médica (42,68 anos). Várias áreas cirúrgicas, que não estão entre as especialidades com maior número de titulados, apresentam predominância de médicos jovens.

Os especialistas em Cirurgia de Mão têm 42,20 anos em média, em Aparelho Digestivo, 44,08 anos, em Cabeça e Pescoço, 44,13 anos, e em Vascular, 44,68 anos de média de idade. Na outra ponta, entre as áreas com especialistas com média de idade acima de 55 anos estão a Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (57,09 anos), Medicina Legal e Perícia Médica (56,63 anos), Angiologia (56 anos), e Homeopatia, com 55,53 anos.

Pediatras e ginecologistas obstetras, que são em maior número entre os especialistas, têm média de idade de 46,46 e 47,78 anos, respectivamente, bastante próximas da média nacional dos médicos em geral, de 46,03. Os cirurgiões plásticos, que estão em 14º no ranking das especialidades, têm média de idade de 47,77 anos. Os dermatologistas, que ocupam o 12º lugar, são mais jovens, têm média de 44,58 anos.

A média de anos que os especialistas estão formados – aqui considerado o ano de registro no CFM, não o da titulação – reforça o perfil mostrado na tabela sobre a média de idade. Os titulados em Clínica Médica estão a menos tempo no mercado, 12,63 anos em média. Com 20 anos ou menos de formados estão médicos de 18 especialidades. Entre elas, Medicina de Família (13,40 anos), Infectologia (16,97 anos), Cirurgia Geral (17,64 anos) e Cancerologia (19,3 anos), além de quatro outras áreas cirúrgicas. Três especialidades têm médicos com média de formados além de 32 anos: Angiologia (33,12 anos), Patologia Clínica/Médica Laboratorial e Homeopatia, as duas com 32,57 anos.

Os dois indicadores, de média de idade e de anos de formado, permitem observar a tendência de crescimento ou de encolhimento no número de especialistas em cada área. As especialidades onde estão os mais jovens – como Clínica Médica, Medicina de Família, Infectologia, Cancerologia, Cirurgia Geral e outras áreas de cirurgia – tendem a crescer. Aquelas onde se concentram os mais idosos, tendem a diminuir, como Angiologia, Patologia Clínica, Medicina Legal e Homeopatia, entre outras. Essa tendência se acentua por conta da juvenização da população médica, decorrente do crescimento exponencial de formandos a partir dos anos 1980.

Mulheres são maioria em 24% das especialidades

Entre os especialistas titulados em atividade no país, 59,39% são homens e 40,61% são mulheres (Tabela 19). Os números são bastante semelhantes quando se olha para a população geral de médicos ativos, 59,85% são homens e 40,15% são mulheres. Entre as 53 especialidades, 13 delas têm maioria de mulheres, o equivalente a 24,5%. Nas outras 40, ou 75,6% delas, os homens predominam.

As mulheres são maioria em cinco das seis áreas consideradas básicas. Dominam em Pediatria, com 70,0%, e ficam um pouco acima da metade em Ginecologia e Obstetrícia (51,5%), Clínica Médica (54,2%), Medicina de Família (54,2%) e Medicina Preventiva (50,3%). Nas especialidades básicas, só perdem na Cirurgia Geral, onde são apenas 16,2%.

A presença marcante das mulheres nas áreas básicas reflete as tendências de feminização e de juvenização que se cruzam na população geral de médicos. As mulheres já são 53,28% na faixa etária de até 29 anos entre os profissionais em atividade. E passaram a ser maioria nas turmas formadas em 2009 e 2010, com indicação acentuada de crescimento.

Essa tendência de feminização nas áreas básicas – como também se observa entre os mais jovens – parece caminhar ao encontro de algumas carências verificadas pelos empregadores do SUS. As necessidades, distribuídas por todas as regiões, exigiria o deslocamento desses especialistas para áreas menos assistidas.

Além das especialidades básicas – com exceção da Cirurgia Geral –, as mulheres têm maioria entre 54,6% e 64.1% nas áreas de Endocrinologia e Metabologia, Genética Médica, Hematoligia e Hemoterapia, Homeopatia, Infectologia e Patologia.

Os homens, por sua vez, representam mais de 80% em 13 das 153 especialidades, incluindo aqui nove das dez áreas de cirurgia – a exceção é a Cirurgia Pediátrica, onde os homens também dominam, mas com 67,5%. As seis áreas mais masculinas, onde os homens são 90,0% ou mais, são as de Cirurgia Cardiovascular (90,0%), do Aparelho Digestivo (91,4%), Torácica (93,5%) e Neurocirurgia (91,8%). Em Ortopedia e Traumatologia os homens são 95,0% e em Urologia, 98,8%. Concentração de especialistas acompanha distribuição espacial de médicos Os números desse primeiro censo de especialidades mostram que, espacialmente, onde se concentram médicos em geral, também estão concentrados os especialistas.

Os dados não permitem dizer onde há escassez ou excesso de especialistas, mas ao analisar a distribuição de médicos em geral e de médicos especialistas por Grandes Regiões, o padrão semelhante de distribuição permite dizer que onde estão concentrados os médicos em geral, também estão concentrados os especialistas titulados.


Fonte: http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=NoticiasC&id=2323

Não faltam médicos; falta melhor distribuição!!

A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza como parâmetro ideal de atenção à saúde da população a relação de 1 médico para cada 1.000 habitantes. Para centros com uma rede de serviços bem estruturada, os técnicos defendem a ampliação deste parâmetro. De qualquer forma, a definição desta relação torna-se um importante recurso de mapeamento da distribuição de médicos no país.

No Brasil, a relação média observada de 1/622 habitantes está muito abaixo deste parâmetro devido à grande concentração de médicos ativos verificada nas regiões Sudeste (1/455 hab.), Sul (1/615 hab.) e Centro-Oeste (1/640 hab.). Somente as regiões Nordeste e Norte estão próximas deste parâmetro, apresentando relação média de 1/1.063 e de 1/1.345 habitantes, respectivamente (Tabela 1).

No Norte, apenas Roraima (1/762 hab.) apresenta uma relação média abaixo de 1/1.000 habitantes; o que também ocorre em cinco (55,6%) dos estados do Nordeste. Uma análise comparativa dos estados, indica que 16 deles (59,3%) apresentam uma relação abaixo de 1/1.000 hab., sendo que o Rio de Janeiro (1/302 hab.) e o Distrito Federal (1/309 hab.) são os que apresentam a maior concentração de médico por habitante, ultrapassando, inclusive, São Paulo (1/471 hab.).

Em sentido inverso, destacam-se o Maranhão (1/1.917 hab.), seguido do Pará (1/1.500 hab.), Amapá (1/1.484 hab.), Rondônia (1/1.450 hab.), Piauí (1/1.420 hab.), Acre (1/1.374 hab.)Tocantins (1/1.329 hab.), Ceará (1/1.161 hab.), Amazonas (1/1.132 hab.), Bahia (1/1.116 hab.) e Mato Grosso (1/1.041hab.). Destes, somente Acre e Amapá mantém esta relação média acima de 1/1.000 habitantes, também, em suas capitais e regiões interioranas.

Não obstante, Tocantins (1/959 hab.) e Rondônia (1/968 hab.) estarem no limite em suas capitais, merecem destaque pelo fato de apresentarem elevada relação média em suas regiões interioranas (1/1.413 hab. e 1/1.725 hab., respectivamente), justamente onde está concentrada a maioria da população e dos médicos ativos. Este desempenho foge à regra, evidenciando falta de médicos no interior desses estados, sem que se configure concentração de médicos nas suas capitais.

Das seis capitais da região Norte, Rio Branco/AC, Macapá/AP e Boa Vista/RR apresentam relação superior a 1/1.000 hab., fato que não se observa nas demais capitais do país (Quadro 1). Roraima apresenta um desempenho excepcional, em razão de sua capital Boa Vista destacar-se como a única exceção à tendência brasileira de maior concentração de médicos nas capitais, apresentando a mais alta relação média observada no país (1/1.737 hab.), enquanto no interior do estado esta relação cai para (1/419 hab.), igualmente a mais baixa do país. Este desempenho, no entanto, necessita ser confrontado com o fato de que no interior estão concentrados somente 30,4% da população do estado e 69,5% dos médicos de Roraima. Em outras palavras, cerca de 70% da população estadual, que está concentrada na capital Boa Vista, têm carência de médicos, sem que haja carência destes profissionais no estado (1/762 hab.)

Em sentido contrário, no interior do Pará, obser va-se a maior relação média do país (1/4.466 hab.), desempenho que resulta do fato de 73,3% dos médicos ativos do estado estarem concentrados na capital Belém, que reúne apenas 20,4% da população do estado.

No Nordeste, destaca-se a relação média observada no Maranhão (1/1.917 hab.), a mais alta do país. A capital São Luiz, com apenas 15,6% da população do estado e concentrando 52,5 % dos médicos ativos, apresenta uma relação média de 1/570 hab., contra 1/3.403 hab. no interior.

Da mesma forma, merecem destaque nacional as altas relações médico/habitantes observadas no interior dos estados nordestinos, chegando a oscilar entre 1/1.691 hab. na Paraíba e 1/4.108 hab. no Sergipe; o que resulta do fato de todas as capitais nordestinas apresentarem relação média bem inferior a 1/1.000 hab. Este desempenho, comparado às demais regiões, evidencia que o Nordeste apresenta a maior concentração de médicos em capitais brasileiras.





A capital de Sergipe, por exemplo, com 25,7% da população estadual, tem à sua disposição 82,9% do médicos ativos no estado.

Não obstante todas as relações médias apresentadas pelos estados do Centro-Oeste serem bastante baixas, com exceção do Mato Grosso (1/1.041), chama a atenção a do Distrito Federal (1/309 hab.), por ser a segunda menor do país, abaixo apenas da observada no Rio de Janeiro (1/302 hab.). As capitais da região Centro- Oeste também apresentam relação média bem abaixo do parâmetro da OMS, o que não ocorre no interior onde esta relação está um pouco acima.

Os estados do Sudeste e Sul destacam-se por apresentarem todos, sem exceção, relações médias bem abaixo de 1/1.000 habitantes, tanto nas capitais como no interior.



1.1. Síntese

A distribuição percentual de população e médicos ativos por regiões é bastante equivalente com concentrações majoritárias de população e de médicos no Sudeste, minoritárias no Norte; e iguais no Centro-Oeste e no Sul. Apenas no Nordeste se observa uma pequena diferença. (Gráficos 1 e 2)

Quando se acrescenta a esta analise a variável capital e interior, percebe-se que enquanto o interior detém 80% da população brasileira, somente 50% dos médicos lá se radicam, evidenciando uma elevada concentração desses profissionais nas capitais. (Gráfico 3)

Detalhando a variável regional, verifica-se que o Centro-Oeste apresenta a maior concentração de população em capitais e o sul a menor. Da mesma forma, a concentração de médicos ativos nas capitais do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, não é acompanhada no Sudeste e no Sul, onde a situação se inverte. (Gráfico 4)



A primeira vista, a análise indica falta de médicos no interior dos estados de Tocantins, Amapá, Rondônia, Acre, Amazonas e Pará (região Norte); Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Bahia, Alagoas, Ceará, Maranhão, Piauí e Sergipe (região Nordeste) e Goiás, Mato Grosso (Centro-Oeste). Comparando-se, no entanto, estes dados com as relações médias observadas em suas respectivas capitais e com os percentuais de população e de médicos ativos, chega-se à conclusão de que somente possa existir carência de médicos nos estados do Pará, Amapá, Rondônia, Piauí, Acre, Tocantins (região Norte), Maranhão e Piauí (Nordeste). O problema dos demais estados citados acima está relacionado à má distribuição de médicos em seu território.

Este resultado demonstra uma alarmante concentração de médicos nas capitais brasileiras e carência no interior do país, situando-se no Centro- Oeste e Nordeste a maior concentração de médicos em capitais brasileiras. Registra-se, porém, uma exceção na região Norte, visto que das seis capitais, Rio Branco/AC, Macapá/AP e Boa Vista/RR apresentam relação superior a 1/ 1.000 hab., fato que não se observa nas demais capitais do país.

Ocorre que até 2000 existiam apenas cinco cursos de medicina na região Norte, no Amazonas, no Pará, no Tocantins e em Roraima, totalizando 462 vagas/ano. Hoje o quadro evoluiu para doze cursos e 972 vagas/ano, um incremento de 140% nos cursos e de 47% nas vagas/ano. Com exceção do Pará, Amapá e Roraima, os demais estados da região ganharam cursos de medicina: Amazonas, Tocantins e Rondônia, mais 2 cada; Acre, mais um. Assim, o provimento de médicos para a região já está encaminhado, persistindo o quadro inalterado no Amapá, o único estado brasileiro sem curso de medicina. A situação do Pará, no entanto, poderia perfeitamente ser administrada com uma melhor distribuição de médicos em seu território. Colocar mais médicos no estado só iria agravar a altíssima concentração (73%) deles em sua capital Belém, que reúne apenas 20,4% da população do estado.

Da mesma forma, há expectativa de que as altas relações médico/habitantes observadas no Maranhão e no Piauí (1/ 1.917 e 1/ 1.420, respectivamente) sofram inversão acentuada com a implantação de mais 2 cursos em cada um destes estados. No Maranhão, os novos cursos, elevarão o número de vagas/ano em 89% e, no Piauí, em 180%.

Há uma grande distorção entre o aumento do número de vagas/ano em medicina e os recursos direcionados à atenção à saúde da população, o que muito contribui para a concentração de médicos nas capitais. A grande maioria dos formandos, não escolherá o interior pela simples razão de que lá não existe uma política pública efetiva de atração e manutenção destes profissionais. É falso, pois, o argumento de que é preciso formar médicos generalistas para cobrir a carência de regiões interioranas. Embora se possa entender esta maior concentração de médicos nas capitais, as cifras atingidas ultrapassam os limites do razoável, com graves conseqüências para o futuro da categoria.

A pesquisa Situação de Saúde da População Brasileira: Perfil Sócio-demográfico, Epidemiológico, Fontes de Financiamento e Demanda Acolhida por Regiões e Municípios, coordenada pelo Departamento de Gestão da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, (DEGES/MS), apresenta, entre outras possibilidades:

aumentar a capacidade instalada em saúde, principalmente em municípios de 100 a 300 mil habitantes, que são pólos regionais;

promover a formação e capacitação de profissionais de saúde, especialmente médicos, e incentivar sua presença nas regiões com maiores carências, como a Norte e a Nordeste. (cf. Anexo 4)


25 de jul de 2013

O que causa o estrabismo?

por Luiza Sahd
São vários fatores. Um adulto, que nunca foi estrábico, pode desenvolver a enfermidade por doenças metabólicas (diabetes e distúrbios da tireoide), hipertensão arterial, AVC, alta miopia, traumatismo cranioencefálico etc. A boa notícia é que muitos dos casos podem ser revertidos com tratamento. Já o estrabismo que afeta crianças ainda é um mistério para a medicina. Acredita-se que a deficiência seja causada por um desarranjo no desenvolvimento dos sistemas ocular e cerebral, além de fatores hereditários, tumores, paralisia cerebral e outros distúrbios neurológicos.
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1. O estrabismo ocorre quando os mecanismos corticais cerebrais são afetados por doenças ou traumas. Eles controlam os movimentos dos olhos para mantê-los paralelos – o que é fundamental para que as imagens captadas sejam iguais e sincronizadas.
2. Se há uma alteração, os olhos se desviam e se deslocam para direções diferentes. Sem o paralelismo, a pessoa não consegue enxergar a mesma imagem com os dois olhos, tendo uma visão dupla. Todos os objetos parecem chapados e sem profundidade.
3. Antes de iniciar o tratamento, é preciso tratar a doença que causou o estrabismo para que o problema não se repita. Cirurgia e óculos são as opções mais utilizadas em adultos. Em crianças, a prioridade é corrigir a visão dos dois olhos antes de melhorar a estética.
OLHARES DIFERENTES
Os tipos de estrabismo e como eles se apresentam
Concomitante
O ângulo de desvio dos olhos é permanente e constante em todas as direções do olhar.
Intermitente
Quando o desvio dos olhos aparece de vez em quando.
Latente
Só aparece com algum tipo de estímulo e é diagnosticado apenas com exames oculares.
- Mesmo que o paciente se submeta a tratamento e o estrabismo não seja mais aparente, ele sempre terá um pequeno desvio ocular.
 
CONSULTORIA: Mariza Polati, oftalmologista e chefe do Serviço de Estrabismo do HC USP e Mônica Cronemberger, oftalmologista e chefe do setor de Mobilidade Ocular da Unifesp

A Fascinante evolução do olho

Trevor D. Lamb
O olho humano é um órgão extremamente complexo; atua como uma câmera, coletando, focando luz e convertendo a luz em um sinal elétrico traduzido em imagens pelo cérebro. Mas, em vez de um filme fotográfico, o que existe aqui é uma retina altamente especializada que detecta e processa os sinais usando dezenas de tipos de neurônios. O olho humano é tão complexo que sua origem provoca discussão entre criacionistas e defensores do desenho inteligente, que o têm como exemplo básico do que chamam de complexidade irredutível: um sistema que não funciona na ausência de quaisquer de seus componentes e, portanto, não poderia ter evoluído naturalmente de uma forma mais primitiva. Mesmo Charles Darwin admitiu em A origem das espécies, de 1859 – que detalha a teoria da evolução pela seleção natural –, que pode parecer absurdo pensar que a estrutura ocular se desenvolveu por seleção natural. No entanto, apesar da falta de evidências de formas intermediárias naquele momento, Darwin acreditava que o olho evoluíra dessa maneira.

Não foi fácil encontrar uma evidência direta para essa teoria. Embora pesquisadores que estudam a evolução do esqueleto possam documentar facilmente a metamorfose em registros fósseis, estruturas de tecidos moles raramente fossilizam. E mesmo quando isso ocorre, os fósseis não preservam detalhes suficientes para determinar como as estruturas evoluíram. Ainda assim, recentemente biólogos fizeram avanços significativos no estudo da origem do olho, observando a formação em embriões em desenvolvimento e comparando a estrutura e os genes de várias espécies para determinar quando surgem os caracteres essenciais. Os resultados indicam que o tipo de olho comum entre os vertebrados se formou há menos de 100 milhões de anos, evoluindo de um simples sensor de luz para ritmos circadianos e sazonais, há cerca de 600 milhões de anos, até chegar ao órgão sofisticado de hoje, em termos ópticos e neurológicos, há 500 milhões de anos. Mais de 150 anos após Darwin ter publicado sua teoria revolucionária, essas descobertas sepultam a tese da complexidade irredutível e apoiam a teoria da evolução. Explicam ainda porque o olho, longe de ser uma peça de maquinaria criada à perfeição, exibe falhas evidentes – “cicatrizes” da evolução. A seleção natural não leva à perfeição; ela lida com o material disponível, às vezes, com efeitos estranhos.

Para entender a origem do olho humano é preciso conhecer eventos ocorridos há muito tempo. Nós, seres humanos, temos uma linha ininterrupta de ancestrais que remonta a quase 4 bilhões de anos até o início da vida na Terra. Cerca de 1 bilhão de anos atrás, animais multicelulares simples se separaram em dois grupos: um com estrutura de simetria radial (parte superior e inferior, mas não anterior e posterior), e outro de simetria bilateral, com os lados direito e esquerdo espelhando imagens do outro lado, terminando em uma cabeça. Após cerca de 600 milhões de anos, os bilaterais se dividiram em dois grupos importantes: um deu origem à grande maioria dos animais sem coluna vertebral, os invertebrados; e outro, cujos descendentes incluem nossa própria linhagem de vertebrados. Logo após essas duas linhagens se separarem, ocorreu uma incrível diversidade de estruturas animais: a explosão cambriana que deixou sua famosa marca nos registros fósseis de 540 a 490 milhões de anos atrás. Essa explosão evolutiva lançou a base para a origem de nossos tão complexos olhos.

COMPOSTO VERSUS CÂMERA
o registro fóssil revela que durante a explosão cambriana surgiram basicamente dois tipos diferentes de olhos. O primeiro parece ter sido composto da versão observada atualmente em quase todos artrópodes (insetos, crustáceos e aracnídeos). Nesse tipo de olho, uma série de unidades idênticas de geração de imagens – cada uma constitui uma lente ou um refletor – irradia luz para alguns elementos sensíveis a ela, denominados fotorreceptores. Os olhos compostos são muito eficazes para animais de pequeno porte, pois oferecem um amplo ângulo de visão e resolução espacial moderada em volume pequeno. No Cambriano, essa acuidade visual pode ter dado aos trilobitas e a outros artrópodes primitivos uma vantagem de sobrevivência sobre seus contemporâneos. No entanto, olhos compostos são impraticáveis em animais maiores, pois o olho teria de ser enorme para proporcionar visão em alta resolução. Assim, com o aumento do tamanho do corpo, também aumentaram as pressões seletivas favorecendo a evolução do olho tipo câmera.
Nos olhos tipo câmera, todos os fotorreceptores compartilham uma única lente que foca a luz e estão dispostos como uma lâmina (a retina) que reveste a superfície interna da parede ocular. Moluscos têm olhos tipo câmera que lembram os nossos, mas seus fotorreceptores são idênticos ao encontrado em insetos. Os vertebrados apresentam um tipo diferente de fotorreceptores, que nos mandibulados (inclusive nós) ocorrem em duas modalidades: cones para
a visão diurna e bastonetes para a visão noturna.

Há muitos anos, Edward N. Pugh Jr., na época na University of Pennsylvania, e Shaun P. Collin, então na University of Queensland, Austrália, e eu formamos uma equipe para tentar descobrir como os diversos tipos de fotorreceptores poderiam ter evoluído. O que constatamos foi além da resposta a essa questão, fornecendo um cenário convincente para a origem do olho dos vertebrados.

Como outros biólogos antes de nós, Pugh, Collin e eu observamos que muitas características marcantes do olho dos vertebrados também ocorrem em todos os representantes atuais de um ramo principal da árvore dos vertebrados: a dos vertebrados mandibulados. Esse padrão sugere que os vertebrados com mandíbulas herdaram os caracteres de um ancestral comum e que nosso olho já evoluíra por volta de 420 milhões de anos quando os primeiros vertebrados mandibulados (que provavelmente se assemelhavam aos modernos peixes cartilaginosos, como os tubarões) patrulhavam os mares. Concluímos então que nosso olho tipo câmera e seus fotorreceptores devem ter raízes ainda mais profundas e voltamos a atenção para os vertebrados sem mandíbulas, com quem compartilhamos um ancestral comum há cerca de 500 milhões de anos.

Queríamos examinar a anatomia desse animal em detalhe e assim decidimos observar um dos poucos animais modernos desse grupo: a lampreia, peixe semelhante à enguia, com boca em forma de funil estruturada para sugar em vez de morder. Acontece que esse peixe também tem um olho tipo câmera completo, com cristalino, íris e músculos oculares. A retina da lampreia chega a ter uma estrutura em três camadas como a nossa e suas células fotorreceptoras se assemelham bastante aos nossos cones, embora não pareçam ter desenvolvido bastonetes mais sensíveis. Além disso, os genes que regulam muitos aspectos da detecção da luz, do processamento neural e do desenvolvimento do olho são os mesmos que comandam esses processos em vertebrados com mandíbulas.

Essas semelhanças surpreendentes com o olho de vertebrados mandibulados são numerosas demais para terem surgido de forma independente. Um olho essencialmente idêntico ao nosso deve ter existido no ancestral comum dos vertebrados com ou sem mandíbulas há 500 milhões de anos. Nesse ponto, meus colegas e eu não conseguimos deixar de questionar se poderíamos rastrear a origem do olho e de seus fotorreceptores ainda mais longe. Infelizmente, na próxima faixa a ser estudada pela lógica, não há representantes vivos das linhagens que se separaram da nossa nos últimos 50 milhões de anos, mas encontramos indícios no olho de um animal enigmático conhecido popularmente como peixe-bruxa.
Como a lampreia, seu parente próximo, ele tem a forma de uma enguia, sem mandíbulas. Costuma viver no leito oceânico, onde se alimenta de crustáceos e de carcaças de outros animais marinhos. Quando ameaçado, libera um muco extremamente viscoso. Embora esse peixe seja um vertebrado, o olho é bem diferente do modelo comum: não apresenta córnea, íris, cristalino nem todos os músculos de apoio. A retina tem apenas duas camadas de células em vez de três. Além disso, os olhos ficam encaixados profundamente sob uma área de pele translúcida. Observações no comportamento do peixe-bruxa sugerem que seja praticamente cego, localizando o alimento pelo olfato aguçado.

Esses animais compartilham um ancestral com as lampreias, que talvez tenham tido um olho tipo câmera. Assim, o olho do peixe-bruxa deve ter se degenerado dessa forma mais avançada; é isso que a existência desse estado mais precário revela. Tomando o exemplo dos peixes cegos em cavernas, sabemos que os olhos podem sofrer degeneração significativa e até mesmo podem ser perdidos completamente em menos de dez mil anos. Mas o olho desse peixe manteve-se igual por centenas de milhões de anos. A persistência sugere que embora o animal não use o olho para enxergar nas profundezas do oceano escuro, o órgão é essencial para a sobrevivência. A descoberta gera outras implicações. O olho do peixebruxa pode ter permanecido nesse estado rudimentar devido a uma falha no desenvolvimento; assim, sua estrutura atual representaria a arquitetura de um estágio evolutivo anterior.

Ao observar melhor a retina do animal podem surgir suposições sobre o papel do olho. Na retina normal, de três camadas dos vertebrados, as células da camada média, conhecidas como bipolares, processam informações dos fotorreceptores e transmitem os resultados para os neurônios de saída, cujos sinais viajam até o cérebro para interpretação. Mas a retina de duas camadas do peixe-bruxa carece de células bipolares intermediárias, ou seja, os fotorreceptores conectam-se diretamente com os neurônios de saída. Nesse sentido, o sistema nervoso da retina do peixe-bruxa assemelha-se ao da glândula pineal − pequeno corpo secretor de hormônios do cérebro de vertebrados. A glândula pineal modula o ritmo circadiano e, nos vertebrados não mamíferos, contém células fotorreceptoras que se conectam diretamente com os neurônios de saída, sem células intermediárias; em mamíferos, essas células perderam a capacidade de detectar luz.

Em 2007, parcialmente fundamentados por esse paralelo com a glândula pineal, meus colaboradores e eu propusemos que o olho do peixe-bruxa não está envolvido na visão, mas fornece informações à parte do cérebro do animal que regula o essencial ritmo circadiano, além de atividades sazonais como alimentação e reprodução. Assim, talvez, o olho ancestral dos protovertebrados que viveram entre 550 milhões ou 500 milhões de anos, primeiro serviu como um órgão não visual, e só mais tarde o poder de processamento neural e os componentes ópticos e motores necessários
para a visão espacial evoluíram.

Estudos de desenvolvimento embriológico do olho dos vertebrados apoiam essa hipótese. Quando a lampreia está na fase larval, vive em leito de riachos e é cega. Nesse estágio de vida, o olho assemelha-se ao do peixe-bruxa, com estrutura simples, soba pele. Quando a larva sofre metamorfose, o olho rudimentar cresce substancialmente, desenvolve uma retina de três camadas, cristalino, córnea e músculos de apoio. Depois, o órgão emerge na superfície como o olho tipo câmera dos vertebrados mandibulados. Muitos aspectos do desenvolvimento de um indivíduo espelham eventos que ocorreram durante a evolução de seus antepassados, assim podemos, com cautela, usar o desenvolvimento do olho da lampreia para relatar a nossa reconstrução de como o olho evoluiu.



Cicatrizes da Evolução - O olho dos vertebrados, longe de ser concebido de forma inteligente, contém inúmeros defeitos que atestam a sua origem evolutiva. Entre os defeitos que degradam a qualidade da imagem, estão uma retina invertida, que força a luz a atravessar corpos celulares e fibras nervosas antes de atingir os fotorreceptores 1 ; vasos sanguíneos que se espalham pela superfície interna da retina, provocando sombras indesejadas 2 ; fibras nervosas que se juntam, projetam-se numa abertura única na retina e viram o nervo óptico, criando um ponto cego 3 .
O sistema ocular dos mamíferos também apresenta indícios intrigantes de sua origem evolutiva durante o desenvolvimento embrionário. Benjamin E. Reese e seus colaboradores da University of California em Santa Barbara constataram que os circuitos da retina de mamíferos começam um pouco como o dos peixes-bruxa, , com os fotorreceptores conectando-se diretamente com os neurônios de saída. Então, em um período de semanas, as células bipolares amadurecem e se inserem entre os fotorreceptores e os neurônios de saída. Essa sequência é exatamente o padrão de desenvolvimento esperado para confirmar se a retina de vertebrados evoluiu de um órgão de duas camadas, acrescentando poder de processamento e componentes de formação de imagens. Portanto, parece perfeitamente plausível que esse estágio inicial e simples de desenvolvimento representa o resquício de um período de evolução anterior à criação do circuito de células bipolares na retina e antes do surgimento do cristalino, córnea e músculos .
ASCENSÃO DOS RECEPTORES
enquanto estudávamos o desenvolvimento das três camadas da retina, surgiu outra questão relativa à evolução do olho. As células fotorreceptoras em todo o reino animal se distribuem em duas categorias distintas: rabdoméricas e ciliares. Até recentemente, muitos cientistas acreditavam que os invertebrados usavam as rabdoméricas, enquanto vertebrados usavam as ciliares, mas, na verdade, a questão é mais complexa. Na grande maioria dos organismos, os fotorreceptores ciliares são responsáveis pela detecção de luz para fins não visuais, como regular o ritmo circadiano, por exemplo. Em contraste, os receptores rabdoméricos detectam a luz com o propósito explícito de permitir a visão. Tanto os olhos compostos dos artrópodes quanto os olhos tipo câmera dos moluscos – como os do polvo, que evoluíram de forma independente dos olhos tipo câmera dos vertebrados – usam fotorreceptores rabdoméricos. Mas o olho dos vertebrados usa fotorreceptores ciliares para detectar a luz para a visão.

Em 2003, Detlev Arendt, do Laboratório Europeu de Biologia Molecular em Heidelberg, na Alemanha, relatou evidências de que o nosso olho ainda retém descendentes dos fotorreceptores rabdoméricos, que foram modificados para formar os neurônios de saída que enviam informações da retina para o cérebro. Essa descoberta indica que a nossa retina contém os descendentes das duas classes de fotorreceptores: as ciliares, originalmente fotorreceptoras, e as rabdoméricas, transformadas em neurônios de saída. A evolução funciona exatamente assim, pressionando uma estrutura existente para um novo propósito; a descoberta de que os fotorreceptoras ciliares e rabdoméricos desempenham papéis diferentes em nosso olho em comparação com os olhos de invertebrados acrescenta ainda mais peso à evidência de que o olho dos vertebrados foi construído num processo natural.

Para tentar entender por que os fotorreceptores ciliares triunfaram como sensores de luz na retina de vertebrados, enquanto a classe rabdomérica evoluiu para neurônios de projeção, analisei as propriedades de seus respectivos pigmentos sensíveis à luz, as rodopsinas, assim denominadas devido à molécula da proteína opsina que contêm. Em 2004, Yoshinori Shichida e seus colegas da Universidade de Kyoto, no Japão, mostraram que bem no início da evolução dos pigmentos visuais de vertebrados, ocorreu uma mudança que tornou a forma do pigmento ativada pela luz mais estável e, portanto, mais ativa. Postulei que essa mudança também bloqueou a rota de reconversão da rodopsina ativada de volta à sua forma inativa, que no caso de rodopsinas rabdoméricas requer a absorção de um segundo fóton de luz; basicamente, uma via bioquímica foi necessária para recolocar a molécula em alerta para o sinal de luz. Assim que esses dois elementos foram colocados na devida proporção, eu supus que os fotorreceptores ciliares tiveram uma vantagem distinta sobre os fotorreceptores rabdoméricos em ambientes como o oceano profundo, onde os níveis de luz são muito baixos. Então, alguns cordados primitivos (ancestrais dos vertebrados) podem ter conseguido colonizar nichos ecológicos inacessíveis a animais que dependiam de fotorreceptores rabdoméricos – não porque a opsina ciliar melhorada garantia mais visão, mas por propiciar um modo melhorado de sentir a luz, permitindo que os relógios sazonais e circadianos tenham noção de tempo.

Para esses cordados primitivos, habitantes de reinos mais escuros, os fotorreceptores rabdoméricos menos sensíveis e que dispunham, junto com os ciliares, teriam sido virtualmente inúteis e assim estariam livres para assumir um novo papel: de neurônios transmissores de sinais ao cérebro. (Nesse ponto, eles não precisavam mais de opsinas, e a seleção natural as teria eliminado dessas células.)
NASCE UM OLHO
Agora que os meus colegas e eu tínhamos ideia de como os componentes da retina dos vertebrados se originaram, quisemos entender como, há cerca de 500 milhões de anos, o olho evoluiu de um órgão sensor de luz não visual para esse que forma imagens. Novamente encontramos indícios em embriões em desenvolvimento. No início do desenvolvimento, a estrutura neural que dá origem ao olho se projeta em um dos lados formando dois sacos ou vesículas. Depois, as vesículas se dobram, formando uma retina em forma de C que reveste o interior do olho. Provavelmente a evolução prosseguiu de forma bem semelhante. Nossa hipótese é que um proto-olho deste tipo – com uma retina em forma de C, de duas camadas, composta de fotorreceptores ciliares no exterior e neurônios de saída oriundos de fotorreceptores rabdoméricos no interior – evoluiu em um ancestral de vertebrados entre 550 e 500 milhões de anos. Ele serviu como propulsor de um relógio interno, e talvez para ajudá-lo a detectar sombras orientar o organismo de modo apropriado.

Na etapa seguinte do desenvolvimento embrionário, enquanto a retina dobra-se para o interior, forma-se o cristalino, oriundo de um espessamento da superfície externa do embrião, ou ectoderma, que protrai no espaço curvo vazio formado pela retina em forma de C. Por fim, essa protrusão se separa do resto do ectoderma, tornando-se um elemento de livre flutuação. Parece provável que uma sequência de transformações muito semelhantes ocorreu
durante a evolução. Não sabemos exatamente quando aconteceu, mas em 1994, cientistas da Universidade de Lund, na Suécia, mostraram que os componentes ópticos do olho podem ter evoluído facilmente em 1 milhão de anos.

Com o surgimento do cristalino para captar a luz e focar imagens, a capacidade de o olho coletar informações melhorou muito. Esse progresso teria criado pressões seletivas favorecendo o surgimento de processamento de sinal melhorado na retina além do que a simples ligação de fotorreceptores para neurônios de saída oferecia. A evolução satisfez essa necessidade, modificando o processo de maturação das células para que algumas células em desenvolvimento em vez de formar fotorreceptores ciliares se tornassem células bipolares da retina que se inserem entre a camada de fotorreceptores e a de neurônios de saída. É por isso que as células bipolares da retina são tão semelhantes aos bastonetes e cones, embora não tenham rodopsina e recebam a entrada não da luz, mas da substância química liberada pelos fotorreceptores.

Embora os olhos tipo câmera proporcionem um amplo campo de visão (basicamente em torno de 180 graus), na prática nosso cérebro consegue processar apenas uma fração da informação disponível a qualquer momento devido ao número limitado de fibras nervosas que ligam o olho ao cérebro. Sem dúvida, os olhos tipo câmera primitivos enfrentaram uma limitação ainda mais séria, pois se supõe que tivessem ainda menos fibras nervosas. Assim, houve pressão seletiva considerável para a evolução dos músculos para movimentarem os olhos. Esses músculos deviam existir há 500 milhões de anos, porque a estrutura deles na lampreia, cuja linhagem remonta a essa época, é quase idêntica à dos vertebrados mandibulados , inclusive nós, seres humanos. Para todos os aspectos engenhosos da evolução ocorridas dentro do olho dos vertebrados, há vários caracteres decididamente deselegantes.

Por exemplo, a retina está invertida, então a luz tem de passar por toda a sua espessura, através das fibras nervosas intermediárias e corpos celulares que dispersam a luz e degradam a qualidade da imagem, antes de atingir os fotorreceptores sensíveis à luz. Os vasos sanguíneos também cobrem a superfície interna da retina e lançam sombras indesejáveis na camada de fotorreceptores. A retina tem um ponto cego onde fibras nervosas que passam por toda a sua superfície se reúnem antes de canalizar pela retina e surgir por trás dela como nervo óptico. E a lista vai longe.

Neurônios são criados na vida toda, diz estudo

Pesquisadores usaram datação por carbono-14 para mostrar que célula nasce em várias idades

07 de junho de 2013 | 2h 02

HERTON ESCOBAR - O Estado de S.Paulo
A formação - ou não - de neurônios no cérebro humano ao longo da vida é um dos assuntos que mais "queimam neurônios" dos neurocientistas. Há evidências de que novas células neuronais são geradas em algumas estruturas cerebrais até a vida adulta, mas a frequência com que isso ocorre e a importância desse processo (chamado neurogênese) dentro da fisiologia do cérebro como um todo são temas ainda pouco compreendidos pela ciência.
Agora, em um estudo "bombástico" publicado na revista científica Cell, pesquisadores revelam evidências diretas e inéditas de que neurônios são formados continuamente ao longo da vida no hipocampo, uma região do cérebro fortemente associada à memória e ao aprendizado. Mais especificamente, cerca de 700 novos neurônios por dia em cada hipocampo (o cérebro tem dois, um em cada hemisfério). O estudo foi feito com cérebros congelados (doados após a morte) de pessoas entre 19 e 92 anos, sob a coordenação de cientistas do Instituto Karolinska, na Suécia.
Tão interessante quanto os resultados é o método que os pesquisadores desenvolveram para chegar até eles. Para determinar a idade dos neurônios e concluir em que momento da vida eles foram gerados, utilizou-se uma técnica de datação de carbono semelhante à que se usa na arqueologia e na paleontologia para datação de fósseis e objetos antigos.
Cientistas mediram no DNA de cada neurônio a concentração de carbono-14, um isótopo de carbono não radioativo (não nocivo) produzido pela explosão de bombas atômicas na superfície durante a Guerra Fria, nas décadas de 1950 e 1960. Esse carbono-14 atmosférico entrou na cadeia alimentar via fotossíntese e acabou incorporado ao DNA das células.
Comparando a concentração de carbono-14 nas células às concentrações de carbono-14 na atmosfera no passado (que são bem conhecidas), foi possível determinar em que ano cada neurônio foi gerado. Se um neurônio "nasceu" em 1995, mas a pessoa nasceu em 1965, por exemplo, isso significa que ele foi gerado na vida adulta.
O próximo passo é tentar determinar a importância dessa neurogênese nas funções cerebrais. Segundo cientistas, o fato de tantas células serem formadas continuamente sugere fortemente que elas têm um papel importante na manutenção das funções cognitivas do hipocampo ao longo da vida.

Escritora volta a enxergar após troca da cor dos olhos



JOSÉ MARIA TOMAZELA - Agência Estado
Depois de perder 70% da visão por causa de uma cirurgia para trocar a cor dos olhos feita no Panamá, a escritora carioca Patrícia Rodrigues começou a voltar a enxergar. Patrícia foi submetida a um tratamento corretivo no Banco de Olhos de Sorocaba (BOS) e em duas semanas terá a visão totalmente recuperada. A cirurgia removeu a película de cor verde que havia sido inserida na córnea de cada olho dela e recuperou os tecidos lesionados - os órgãos voltarão a ter a característica natural, castanho-escuro. Nesta terça-feira, 16, Patrícia recebeu alta e viajou para casa, no Rio.
A técnica, conhecida como transplante endotelial, é um método menos agressivo e de recuperação rápida, de acordo com o médico oftalmologista do BOS Nicolas Cesário Pereira, que fez a cirurgia. As células endoteliais formam membranas internas e são responsáveis por manter a córnea transparente. O implante das películas coloridas na operação feita no Panamá causou uma lesão na membrana e o acúmulo de líquido, tornando a córnea opaca e causando a perda da visão. Normalmente, a dificuldade é corrigida com o transplante convencional de córnea, que exige até um ano para a recuperação completa da visão e tem risco de 23% de rejeição.
No método usado, o implante e a membrana doente foram retirados por uma microincisão na periferia da córnea e substituídos por tecido sadio. O risco de rejeição é de no máximo 1%. No terceiro dia após o tratamento do primeiro olho, a escritora carioca já enxergava e, no sétimo, tinha recuperado 100% da visão. O segundo olho foi operado na semana passada. Patrícia terá acompanhamento pelas próximas duas semanas.
De acordo com Pereira, a técnica do transplante endotelial não pode ser aplicada a todos os candidatos ao transplante de córnea. Ela é válida para pacientes que, além de ter apenas a camada mais interna doente - o endotélio -, apresentem uma quantidade elevada dessas células epiteliais. A técnica ainda é pouco difundida no Brasil. Segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), em 2011 foram realizados 14.182 transplantes de córnea no País. Destes, 20% poderiam ser menos invasivos com a técnica do transplante endotelial, mas o número não chega a 1%.
Patrícia tinha olhos castanhos e desde adolescente usava lentes de contato. Em 2009, incentivada pelo então namorado, um cirurgião plástico, decidiu trocar a cor natural para verde. O procedimento não é realizado no Brasil. Por isso, a escritora viajou para o Panamá. No início de 2013, Patrícia começou a perder a acuidade visual. Em algumas semanas, a questão agravou-se ao ponto de a autora não conseguir mais enxergar o chão ou ver o prato de comida. Patrícia afirma que passou a depender de ajuda para as tarefas mais simples.
A clínica do Panamá é uma das poucas do continente que realizam cirurgias para mudança na cor dos olhos, mas o método não é considerado seguro. No Brasil, o procedimento está em fase experimental e ainda não foi aprovado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Estima-se que 600 brasileiras já viajaram ao Panamá para mudar a cor dos olhos, mas não há dados sobre os casos de perda de visão - Patrícia foi uma das primeiras a tornar pública a complicação.

14 de jul de 2013

Cientistas anunciam mais detalhado mapa do cérebro; acesso é gratuito

Cientistas divulgaram nesta quinta-feira um mapa 3D do cérebro que pode ser acessado gratuitamente. O BigBrain mostra uma anatomia detalhada microscopicamente - a uma resolução espacial de 20 micrômetros (um micrômetro equivale a um milionésimo de metro) - e tem como objetivo "o avanço do campo da neurociência". O esforço faz parte do Projeto Europeu do Cérebro Humano e o resultado foi anunciado na revista especializada Science. É necessário cadastro no site.

"Os autores forçaram os limites da atual tecnologia", diz Peter Stern, editor da Science, sobre o esforço internacional. "Essa resolução espacial excede a atual referência avaliável do cérebro em um fator de 50 em cada uma das três dimensões espaciais."
Os pesquisadores afirmam que o detalhamento do mapa cerebral permite visualizar a microestrutura do órgão (o nível celular) - tudo em 3D. As ferramentas similares mapearam apenas os componentes macroscópicos do cérebro.
Os cientistas usaram o cérebro de uma mulher de 65 anos que foi preservado em parafina e cortado em 7,4 mil fatias com uma ferramenta especial. Cada corte, com 20 micrometros de espessura, foi montado em slides, tingido para detectar as estruturas celulares e, finalmente, digitalizado em um scanner de alta-resolução. O trabalho durou cerca de 1 mil horas.

"Nosso plano é repetir este processo em uma amostra de cérebros, então podemos quantificar a variabilidade citoarquitetural (a organização das células)", diz Alan Evans, da Universidade McGill, em Montreal. Os pesquisadores pretendem ainda entender a relação entre essa microanatomia e as moléculas neurotransmissoras, entre outros objetivos.
Os cientistas esperam que o nível de detalhamento do mapa permita conseguirmos dados sobre as bases neurológicas da cognição, linguagem, emoções e outros processos. Por outro lado, o estudo pode dar pistas sobre envelhecimento e doenças neurodegenerativas. Um passo planejado é fazer um mapeamento com resolução espacial de 1 micrômetro, o que permitiria capturar detalhes de uma única célula.

Estudo japonês mostra como o cérebro processa representações visuais

atualizado às 15h09


Cientistas do Japão descobriram que o modo como o cérebro armazena representações visuais de objetos é diferente do que se pensava. Segundo os pesquisadores, o órgão primeiramente cria "representações precursoras" em uma área menor na hierarquia cerebral, e somente depois essa representação se prolifera e se fixa no órgão.
"Quando reconhecemos o que nós vemos, nosso cérebro nunca faz uma fotocópia interna perfeita do que nós vemos. Uma fotocópia perfeita não leva a um reconhecimento eficiente e flexível. Por exemplo, quando vemos um copo de café de um ângulo ou distância diferente, o copo de café pode produzir muitas imagens retinais diferentes com diferentes formas e/ou tamanhos no olho. Apesar disso, você pode reconhecer e identificar as imagens retinais como vindas do mesmo copo de café. Isso é possível devido a computações feitas no cérebro, que depende de um banco de dados chamado de representação interna do mundo externo, ou 'representação neuronal'. (...) Uma representação neuronal de um objeto é distribuída para cada atributo ou característica dele através de diferentes áreas do cérebro, e características mais complexas são representadas em áreas mais altas do cérebro", diz Yasushi Miyashita, da Universidade de Tóquio, um dos autores do estudo.
Os sinais que temos de objetos chegam através dos órgãos sensoriais e passam por uma hierarquia de áreas no cérebro, pelas quais são processados. É aceito entre os cientistas que uma característica nova e mais complexa de um objeto emerge e se torna predominante em uma área específica do córtex. Os pesquisadores do Japão, contudo, decidiram testar uma nova hipótese, de que o órgão cria um pequeno número de representações precursoras em um estágio inicial dessa hierarquia do córtex, e só depois a representação se prolifera e se torna predominante na área superior.
Para testar a hipótese, os médicos examinaram dois macacos durante um experimento que durou meses. Enquanto os animais aprendiam a relação entre diversos objetos, os cientistas monitoravam os cérebros destes. Ao contrário de estudos anteriores, nos quais os pesquisadores analisavam neurônios individualmente, os especialistas do Japão focaram em pares de neurônios, acreditando na atuação em pares dessas células.
Para a surpresa dos cientistas, o funcionamento em pares dos neurônios ocorre apenas na área hierárquica mais baixa - na mais alta, o funcionamento ainda era individual. Apesar disso, as observações deram suporte à hipótese dos pesquisadores e podem mudar a maneira como a ciência vê a formação de representações no cérebro. O time japonês tentará agora descobrir a cadeia de eventos que o cérebro segue ao recuperar uma memória.


9 de jul de 2013

Esta entrevista é Filosofia pura!! Muito interessante!!

Confiança entre médico e paciente está comprometida, afirma cirurgião

LUÍS EBLAK
EDITOR DA "FOLHA RIBEIRÃO"
"A confiança entre médico e paciente foi consumida pela presença cruel da relação convênio-paciente. [Com a vigência dos planos de saúde] o paciente passou a ter o seu 'médico do convênio', que deve ser deletado quando existe a troca do convênio."
A afirmação é do médico ribeirão-pretano Reginaldo Vianna, 63, que acaba de lançar o livro "Qual Quem Sou Eu?" (editora Funpec).
Para ele, a necessidade dos convênios é fundamental na sociedade brasileira, mas ela trouxe consequências inclusive na saúde pública.
"No SUS, isso leva perigosamente a uma relação de desconfiança mútua. O paciente é induzido a duvidar da capacidade do médico, que ele não conhece, mas que deve atendê-lo porque é aquele que está de plantão."
Ex-professor de cirurgia pediátrica e formado pela tradicional FMRP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto), da USP, Vianna decidiu estudar filosofia aos 57 anos.
O livro agora lançado não trata da medicina, mas na conversa com a Folha sua profissão foi um dos temas discutidos. O principal foco em sua obra, porém, é a relação que o ser humano tem com os outros.
Edson Silva/Folhapress
Reginaldo Vianna, cirurgião plástico ribeirão-pretano, mostra livro lançado
Reginaldo Vianna, cirurgião plástico ribeirão-pretano, mostra livro lançado
Leia a seguir a íntegra da entrevista concedida por e-mail.
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Folha - Médicos, advogados e outros profissionais com ensino superior costumam lançar livros de literatura (romances, poesias), geralmente fruto de trabalho realizado nas horas vagas. O sr. deve ser um dos poucos a lançar um livro de filosofia, após fazer seu segundo curso universitário já como médico formado. Por quê?
Reginaldo Vianna - O fato de ser profissional liberal, cirurgião pediátrico, certamente exacerbou em mim o questionamento constante sobre tudo e sobre todos. A minha formação profissional exige uma capacidade ou uma possibilidade maior em "juntar fragmentos" (da saúde ou da falta dela) e conceber um diagnóstico para posteriormente estabelecer um tratamento e finalmente conviver com o resultado o resto da vida.
Felizmente meus resultados sempre foram muito bons e a gratificação pessoal, incrível. O desgaste, porém, de todo esse processo, após 35 anos de centro cirúrgico, me fizeram procurar a eventual origem da forma de nosso pensar e de nossas posturas. Posturas como indivíduo e como humanidade, como cidadão e como sociedade, como elemento de uma determinada cultura ou como elemento de uma outra cultura.
O que poderia nos fazer tão diversos que dificilmente conseguimos prever reações individuais nas várias situações?
Os questionamentos dos alunos [de medicina] e dos [meus] pacientes são um livro aberto neste aprendizado.
A busca de respostas me levou ao curso de filosofia, porém sem a ideia de hobby, mas de nova formação. Foi um curso básico, mas que me permitiu olhar o ser humano de uma forma mais pragmática e mais compreensiva.
Esta busca me levou a encontrar realmente a necessidade da participação do "outro" em toda a nossa vida. A aceitação compreensiva do "outro" passa então a ser um ponto crucial.
Fale resumidamente sobre as ideias centrais do livro.
Acho que esta pode ser uma das ideias centrais da obra: 1- Não temos um EU original nem particular, 2-O nosso EU deve ser uma criação "a quatro mãos" (isto não deve representar a possibilidade única de apenas um "outro" nesta criação), 3- As dúvidas sempre são verdadeiras, as respostas nem sempre.
Pode-se dizer que a base da filosofia é a dúvida, o questionamento. A dúvida também é vital para a medicina, mas esta, por outro lado, busca o mais próximo possível da "certeza", com diagnósticos e exames de precisão, por exemplo. Como conciliar isso, para o sr., que convive nos dois mundos?
Muito interessante a sua forma de interpretar as coisas, e atinge o fulcro da questão com muita facilidade.
Durante toda a minha vida médica esta questão me perseguiu. Eu preciso de "certeza", ainda que provisional (mas não provisória), para poder estabelecer um diagnóstico, principalmente cirúrgico.
Meus pacientes sempre foram crianças com malformações a serem corrigidas, ou patologias graves e com indicação cirúrgica. Mais do que a própria medicina, que se compromete com o "melhor que o médico pode dar e não com a cura". Eu nunca aceitei a falha e a família esperava de mim "certeza diagnóstica e habilidade cirúrgica impar", não aceitando menos do que o ótimo.
Ninguém melhor do que o médico conhece as suas limitações e as limitações da medicina, mas como acreditar em sua própria incapacidade e continuar atendendo? Este dilema pode nos levar à depressão ou à supervalorização de nosso conhecimento.
O atendimento médico, por sua vez, se fundamenta na confiança mútua, médico/paciente, e ela está muito comprometida em nossos dias quando o paciente pode escolher, não o seu médico, mas o seu convênio e, no caso do SUS, nem isso.
O estabelecimento do tratamento a ser proposto nasce desta relação única, onde o médico deve convencer o paciente (ou sua família) daquilo que ele concluir, ou melhor, daquilo em que ele se convenceu que acredita.
A relação médico/paciente se baseia na crença, no crer, e não necessariamente na verdade. Se o paciente não acreditar, o tratamento estará fadado ao insucesso.
Como convencer alguém de uma situação muito complexa e grave se ele não está ali por acreditar em você?
Como conviver com isso quando uma vida ou a saúde de alguém está em jogo?
A filosofia pode me mostrar que o homem somente poderá chegar em níveis de conhecimento maior por meio da dúvida, na aceitação ativa da dúvida. No entendimento da existência da "verdade provisional".
Esta verdade é aquela que existirá por um tempo variável ou infindável, até que possa aparecer, ou não, uma nova verdade em função de todo um novo conhecimento.
A tecnologia aplicada à medicina nos tem mostrado uma faceta cruel do subjetivismo humano. O leigo de maneira geral, até porque não escolhe o seu médico de confiança, se apega cada vez mais aos exames que, para ele, pode substituir a eventual incapacidade técnica daquele profissional, que por acaso o está atendendo.
O médico por sua vez, ao pedir os exames desejados pelo paciente pode se "livrar" rapidamente daquele atendimento. Isto é cruel e desumano. A medicina me ensinou que eu somente posso ser grande se eu for grande na relação com o outro, neste caso o paciente.
A filosofia me mostrou que a dúvida pode ser o esteio de todo o crescimento e não uma falha da criação.
Quem sabe a filosofia pode me manter um pouco mais centrado na necessidade de me aceitar falível, humano, curioso e incompleto até que que eu consiga ser maior e melhor, descobrindo-me capaz de ser aceito como criatura e como criador.
Não sei se entendi... Por que a confiança mútua médico/paciente está comprometida?
A relação médico/paciente foi consumida, fragmentada pela presença cruel de uma nova relação, a relação convênio/paciente. A necessidade do convênio em nossa sociedade é fundamental, mas há que se considerar o risco contido nesse "progresso irreversível".
Com a vigência dos convênios, o paciente passou a ter uma nova situação, a de ter o seu "médico do convênio" que deve ser deletado imediatamente (exceto em poucos ou raros casos) quando existe a troca do convênio. [Neste momento] Um novo médico, necessariamente será escolhido. Esta relação se tornou virtual.
Evidentemente no SUS isto é levado ao extremo e leva perigosamente a uma relação de desconfiança mútua. O paciente é induzido a duvidar da capacidade do médico, que ele não conhece, mas que deve atendê-lo porque é aquele que está de plantão.
O médico é imposto a ele. Inúmeras são as informações de "erros médicos", "má formação universitária", "faculdades mercantilistas e sem condições de ensino", etc., que corroboram a desconfiança do paciente.
O médico por sua vez corre o risco de não se sentir "aderido" ao paciente, que ele não consegue perceber como sendo seu. A relação médico/paciente, a meu ver, está comprometida sim, e compromete a recuperação de uma melhoria no atendimento à saúde pública se não for considerada como variável importante no sistema.
Evidentemente o livro não foi escrito para discutir medicina, aliás eu não faço isso no trabalho, mas as suas perguntas realmente me alertaram ou me levaram a estabelecer este paralelo que me pareceu sociologicamente interessante.
Discutir a formação do EU como dependente da relação com o outro e considerada a singularidade do indivíduo foi o que me propus. Escrever novamente sempre será uma promessa diretamente proporcional ao retorno que tiver daqueles que eventualmente possam ler o trabalho. Em princípio isto tem sido muito gratificante.
Como o sr. trata no livro sobre a busca do eu, senti falta de alguns autores mais modernos. Cito um: Gilles Lipovetsky, que tem um estudo interessante sobre o individualismo, "A Era do Vazio". Pretende dar continuidade ao tema abordado, em outro livro, por exemplo?
Eu realmente não sou e não tenho erudição filosófica para discutir temas específicos de filosofia ou sociologia. A minha formação filosófica certamente é pouco menor do que seria o básico necessário. Por mais de 40 anos eu só li e estudei técnicas cirúrgicas em cirurgia pediátrica.
Lamentavelmente eu não conheço o trabalho do Gilles Lipovetsky e li muito menos do que gostaria, principalmente dos mais modernos.
A maioria dos autores que eu pude conhecer, ainda que superficialmente, geralmente foram autores de trabalhos clássicos e que se aplicavam à análise que eu tentei fazer, fundamentalmente voltada para a percepção das alterações no pensar do ser humano, considerada a sua história.
Nesta quase viagem, era importante tentar identificar em alguns momentos dessa história, como o homem pode representar o seu EU de maneira a sentir-se um ser completo ou pelo menos aceitando-se como "possivelmente" completo.
Como teria o homem convivido com "o que os outros viam nele" mais do que aquilo que ele considerava ser ele mesmo?
De maneira geral me fixei em dois momentos da história para poder tornar mais clara a minha percepção pessoal de "verdadeiros divisores do subjetivismo humano".
Em primeiro lugar a "mundialização do homem" (possibilidade de atingir, pelos mares, qualquer lugar da terra) e depois o período do Iluminismo com o início da Idade da Razão e as consequências do cientificismo crescente.
A suposta necessidade de um progresso radicalizado atropelou a humanidade que não pode se adaptar "ao novo" (Ulrich Beck) e culminou com o individualismo fundamentado na singularidade absoluta do homem, que prega uma igualdade paradoxal porque na verdade ele elege a sua liberdade, e não a igualdade ou a fraternidade, como necessidade intestina de seu viver.
Este individualismo é muito mais um fenômeno sociocultural do que apenas mais uma área de estudo da filosofia. Foi este tipo de individualismo, que minimiza a importância do "outro" na nossa vida, que me chamou a atenção porque era isso que eu percebia, algumas vezes, no atendimento médico diário, mas principalmente nas discussões de entidades de classe, das quais eu fiz parte muitos anos.
RAIO-X
REGINALDO VIANNA
VIDA
Nasceu em Ribeirão em 25 de dezembro de 1949
FORMAÇÃO
Fez o ensino médio no Otoniel Mota, medicina na USP de Ribeirão e, já médico, filosofia no Centro Claretiano de Batatais

CARREIRA
Cirurgião pediátrico, foi orientador de residência médica da Santa Casa e professor de medicina da Barão de Mauá